A Vaca das
CordasEscrito por Miguel Roque dos Reys Lemos, CONDE D'AURORA
"Sendo, em verdade, um espectáculo burlesco e brutal, era todavia muito apreciado pelos xx, que o mantinham e respeitavam como usança venerada e divertimento público gratuito, de que se não queriam privados.
Pela três para as quatro horas da tarde, prendia-se ao gradeamento de ferro da janela da torre dos sinos da Igreja Matriz uma vaca mansa, destinada ao talho, e o pacífico animal ficava ali, até às seis horas aproximadamente, exposto ao arbítrio dos transeunte e do rapazio inquieto e malfazejo, que, por prazer, procuravam mortifica-lo e embravece-lo com aguilhoadas e bastonadas, no meio de vozearia e assobios, no meio de apupos e ditérios, não raro imorais. Deleite para os espectadores estímulo para as alegrias e risadas uníssonas.
Pela três para as quatro horas da tarde, prendia-se ao gradeamento de ferro da janela da torre dos sinos da Igreja Matriz uma vaca mansa, destinada ao talho, e o pacífico animal ficava ali, até às seis horas aproximadamente, exposto ao arbítrio dos transeunte e do rapazio inquieto e malfazejo, que, por prazer, procuravam mortifica-lo e embravece-lo com aguilhoadas e bastonadas, no meio de vozearia e assobios, no meio de apupos e ditérios, não raro imorais. Deleite para os espectadores estímulo para as alegrias e risadas uníssonas.
Ordinariamente às seis horas, prazo determinado pelo Senado ou só pelo Presidente, apareciam dois moleiros dos obrigados e ultimamente os remunerados executores das sortes do estilo, que, munidos de cordas, de uns nove a dez metros pelo menos, as enlaçam nas pontas do animal actor e delas se serviam como de guias ou leme da corrida.
A vaca,
desprendida seguidamente do gradeamento de ferro, era guiada em roda da Igreja, que volteava três vezes a trote e pesado galope, sempre aguilhoada e sempre apupada.
E o povo a correr, a correr, uns atrás dela, para a estouvarem e, simultaneamente, não perderem um momento de gozo do espectáculo; - outros na frente, procurando furta-se ao atropelamento; as portas das casas a fecharem-se umas, a abrirem-se outras, para se isolarem momentaneamente da investida da vaca e evitarem o impulso das ondas populares, que se formavam e desfaziam pelas ruas e adro. E as famílias, apinhadas pelos peitoris e sacadas, a casarem suas alegrias ruidosas com as gargalhadas estridentes dos espectadores da praça, endoidecidos.
Findas as três voltas, os ministros da corrida arrastavam ou alavam cordas e cabo ao pobre animal, encaminhando-o para a alameda do Passeio de D. Fernando, para o vasto areal e para a ponte, em demanda dos grupos do povo expectante contra quem pudesse promover as investidas, ou pelo menos enredar com as cordas. E faziam-no com mestria atrevida.
Se o animal, embravecido,
arremetia com alguém ou fazia algum atropelamento, ou se as cordas enrodilhavam as pernas de qualquer temerário ou descuidado transeunte, proclamava-se geralmente o espectáculo de agradável e divertido; mas, não se dando nenhum desses factos, todos unanimemente o apodavam de sensabórico, concluindo com as frases sacramentais: a vaca este ano não fez figura, não prestou para nada. Ao toque da Trindade, estando tudo terminado, a vaca seguia o caminho de seu destino; a gente... cada mocho para seu buraco.
A vereação de 1881 suspendeu
e pôs termo a esta velhíssima usança; mas, nesse mesmo ano, houve um particular que, embirrando com usos, costumes, leis e moças novas, obtidas a prévia licença camarária, pôs cena pública, à sua custa, a mesmíssima corrida. E foi-se de uma vez o espectáculo".
"Corriam-se vacas ou toiros? Vacas e toiros, claro.
Os homens da vila não quiseram deixar perder esse costume, essa tradição de séculos. O nosso concelho (como todos os outros) era obrigado por alvarás régios do século XIII a celebrar o dia de Corpus Christi. As nossas autoridades corriam então toiros para abrilhantar a festa.
Nos meados do século XX,
esse costume desapareceu por um período de dezasseis anos. Os homens XX ficaram desapontados. Mas apareceram dois grandes aficionados da «vaca das cordas», da tourada à corda: Alcindo do Vale Dantas e José da Silva Lima.
Esses dois homens fizeram reviver o orgulho municipal,
retomaram a tradição da vaca das cordas, isto é, da tourada à corda. Foram assim ao encontro da gente popular que sempre manifestou o mais vivo interesse pelas touradas.
Nos meados do século XX,
esse costume desapareceu por um período de dezasseis anos. Os homens XX ficaram desapontados. Mas apareceram dois grandes aficionados da «vaca das cordas», da tourada à corda: Alcindo do Vale Dantas e José da Silva Lima.
Esses dois homens fizeram reviver o orgulho municipal,
retomaram a tradição da vaca das cordas, isto é, da tourada à corda. Foram assim ao encontro da gente popular que sempre manifestou o mais vivo interesse pelas touradas.
No primeiro quartel do século XX, a vaca cedeu o lugar ao toiro negro e gravito, inaugurando-se a tourada à corda com foguetório.
A vila ficava pejada de gente. Vinha de todo o concelho e de outras vilas e cidades para a festa. O touro era incitado pela açougada tempestuosa que o cercava. Em círculo: o touro no meio, símbolo de possança e afoiteza, mostrando-se ansioso e pronto para investir outra vez de frente, a direito".
Luís Dantas
Para saberem onde ocorre esta tradição tão peculiar não percam as "Cenas dos próximos episódios"!!!
