A vaca,
desprendida seguidamente do gradeamento de ferro, era guiada em roda da Igreja, que volteava três vezes a trote e pesado galope, sempre aguilhoada e sempre apupada.
E o povo a correr, a correr, uns atrás dela, para a estouvarem e, simultaneamente, não perderem um momento de gozo do espectáculo; - outros na frente, procurando furta-se ao atropelamento; as portas das casas a fecharem-se umas, a abrirem-se outras, para se isolarem momentaneamente da investida da vaca e evitarem o impulso das ondas populares, que se formavam e desfaziam pelas ruas e adro. E as famílias, apinhadas pelos peitoris e sacadas, a casarem suas alegrias ruidosas com as gargalhadas estridentes dos espectadores da praça, endoidecidos.
Findas as três voltas, os ministros da corrida arrastavam ou alavam cordas e cabo ao pobre animal, encaminhando-o para a alameda do Passeio de D. Fernando, para o vasto areal e para a ponte, em demanda dos grupos do povo expectante contra quem pudesse promover as investidas, ou pelo menos enredar com as cordas. E faziam-no com mestria atrevida.
Se o animal, embravecido,
arremetia com alguém ou fazia algum atropelamento, ou se as cordas enrodilhavam as pernas de qualquer temerário ou descuidado transeunte, proclamava-se geralmente o espectáculo de agradável e divertido; mas, não se dando nenhum desses factos, todos unanimemente o apodavam de sensabórico, concluindo com as frases sacramentais: a vaca este ano não fez figura, não prestou para nada. Ao toque da Trindade, estando tudo terminado, a vaca seguia o caminho de seu destino; a gente... cada mocho para seu buraco.
A vereação de 1881 suspendeu
e pôs termo a esta velhíssima usança; mas, nesse mesmo ano, houve um particular que, embirrando com usos, costumes, leis e moças novas, obtidas a prévia licença camarária, pôs cena pública, à sua custa, a mesmíssima corrida. E foi-se de uma vez o espectáculo".
"Corriam-se vacas ou toiros? Vacas e toiros, claro.
Os homens da vila não quiseram deixar perder esse costume, essa tradição de séculos. O nosso concelho (como todos os outros) era obrigado por alvarás régios do século XIII a celebrar o dia de Corpus Christi. As nossas autoridades corriam então toiros para abrilhantar a festa.
Nos meados do século XX,
esse costume desapareceu por um período de dezasseis anos. Os homens XX ficaram desapontados. Mas apareceram dois grandes aficionados da «vaca das cordas», da tourada à corda: Alcindo do Vale Dantas e José da Silva Lima.
Esses dois homens fizeram reviver o orgulho municipal,
retomaram a tradição da vaca das cordas, isto é, da tourada à corda. Foram assim ao encontro da gente popular que sempre manifestou o mais vivo interesse pelas touradas.
No primeiro quartel do século XX, a vaca cedeu o lugar ao toiro negro e gravito, inaugurando-se a tourada à corda com foguetório.
A vila ficava pejada de gente. Vinha de todo o concelho e de outras vilas e cidades para a festa. O touro era incitado pela açougada tempestuosa que o cercava. Em círculo: o touro no meio, símbolo de possança e afoiteza, mostrando-se ansioso e pronto para investir outra vez de frente, a direito".
Luís Dantas